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segunda-feira, 10 de julho de 2017

I Shot the Sheriff.



Eu atirei no Xerife, abaixo do coração. Ouvi a bala rasgando a carne e estraçalhando seus ossos. Acho que ele também escutou e a melhor parte é que sentiu. Eu senti também, mas o que senti foi prazer.
      Você consegue imaginar uma lanchonete qualquer? Mesas a esquerda, balcão longo a sua direita. Tão cedo que não sabia se dava bom dia ou boa noite, tão cedo que as pessoas pareciam estar dormindo ainda, com seus rostos amassados e cheios de marcas de travesseiro cruzando as bochechas, menos as mulheres, as mulheres que lá estavam brilhavam como o sol. Entrei com o corpo e arrastando a alma pelo braço. E lá estava ele, sentado no fim do balcão, com seu chapéu no banco ao lado e a estrela brilhando no peito onde eu atiraria em alguns minutos. Pude sentir todos os aromas que envolviam a cena, o cheiro de café forte sem açúcar, ovos e bacon na frigideira. Entre um gole e outro no que parecia uísque ele olhava para a bunda da garçonete, levantando sua saia com os olhos, soltando o coque da cabeça dela com a imaginação.
      Do mesmo jeito que olhou para...
      Não, você não vai saber de nada, só vai saber que me sentei a alguns metros dele, pedi meu café e não desgrudei os olhos da sua cara, como se pudesse abrir um buraco no rosto dele com os meus olhos.
      Até que ele percebeu e se levantou, veio me encarando com os olhos baixos e gingando de um lado para o outro, com a mão direita encostada em cima daquela merda que ele chama de arma. Acho que ele acha que ainda estamos no velho oeste. Quando seus lábios formaram a primeira palavra, apontei a minha Colt 45 para ele.
      Fazendo o desgraçado engolir o resto da frase. O peso da arma e da minha consciência virgem fazia o cano descer um pouco, quase vacilei e pedi perdão, mas tem certas horas que a única coisa que você pode fazer é aproveitar a viagem.
      Você já teve uma arma apontada ou pelo menos esteve em um local nessa hora? Consegue imaginar a cena? A cara pálida dele, meus lábios e mãos tremendo, a garçonete num grito abafado enquanto a jarra de vidro de café caia do lado do seu pé.
      Eu estava no olho do furacão, mas não era o único que sentia os ombros pesados e o corpo inteiro suar. Acho que até Deus para tudo que está fazendo para ver cenas como essa.  
            Achava que pessoas ruins sabiam que eram demônios fazendo hora extra na terra e saiam de casa esperando morrer, mas a reação dele quebrou a minha teoria. Agora tenho uma nova, acho que eles não pensam na morte durante o dia pois sabem que a terra foi dominada por eles. Pelo menos agora será dois a menos.
            Droga, o bacon queimou.