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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Aluga-se



Eu vejo olhares
Olhares
Que não
Parecem estar
Sendo habitados por ninguém

São casas vazias
Em movimento
Gritando em silencio

Aluga-se!

Essa vida
E esse par de olhos
Com vista para a morte.

Eu vejo lábios
Lábios
Onde a conversa
É sempre barata

Aluga-se!

Um par de lábios finos
Onde o óbvio
Corta e faz jorrar
O ódio.

Se eu pudesse alugar
Qualquer parte
Dessas casas em movimento
Eu alugaria os ouvidos.

Passaria um final de semana
Aos sussurros
Dentro dele

Dizendo o quanto
Os seus outros cômodos
São incríveis

Passaria na sua janela
Só para ver os sonhos
Que pendurou nas paredes

E na calada da noite
Dizer
Que a primeira etapa da realização
É o sonho.

Eu sei
São dores sem vazão
E por outro lado
Se tem
Muita
Infiltração

Fazendo parecer
Que a única alternativa
É deixar
De habitar em si.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Sobre Nada, Sobre Tudo

1
 
Pintei a minha volta quatro paredes brancas
Coloquei prateleiras e as enchi
Com as coisas que mais amei.
Coisas que amei errado
Mas não soube.

Enquanto enfiava o troco
No bolso da calça
E sentia o peso da minha insignificância na sacola
Eu fui feliz.

Fui feliz errado
Ou pelo menos, meio errado
Daqueles que sabe
Que carrega uma sacola vazia
E enche a prateleira de coisas vazias
Mas sorri.

Sorri errado
Sorri sem paixão.
E sem paixão eu não passo
De uma sacola que pesa, mesmo vazia.

2

A noite cai
As paredes brancas brilham
A poeira ainda não tomou as prateleiras
Mas o silêncio
O silencio tomou tudo que respira e pensa
Despejou um balde cheio de palavras
Que evitei o dia todo
Enquanto carregava uma sacola vazia
E voltava para casa sorrindo.

Não contei ainda
No caminho de volta
Encontrei um homem que não amava
Mas sabia o que era o amor
Dizia nunca ter sentido
Mas sabia seu significado
E até mesmo seu gosto.

Provavelmente amou e não percebeu
Por esperar que o sol jamais iria embora
Enquanto amava.
Por esperar que o amor fosse palpável
E devesse estar dentro de uma redoma
Com uma placa presa embaixo
Descrevendo-o.

Aqui jaz o que eu nunca aprendi a sentir.

3

Amanhã talvez eu derrube  
Essas quatro paredes brancas
Ou as pinte de outra cor qualquer.

Por dentro sei que não é a cor
Que se tornou intragável
Sou eu
Que não as encaro da mesma forma mais.

Sou eu que esperava algo diferente
Assim como o homem
Que achava que o amor tinha gosto
Para encontrar sabor
Em mais uma de suas desculpas.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

TEATRO



Queremos os olhos voltados para nós
Por mais que tenham dentes nas pálpebras
Para poderem morder
A nossa felicidade débil e saborosa

Sejamos sinceros
Se não verem nosso sorriso
É como se nunca tivéssemos rido
Se jamais nos ouvirem
É como se não tivéssemos voz
Não nos basta pensar
Quero a crítica e principalmente o elogio

Que a luz queime a pele, mas não deixe de existir
A maior dor que sentimos
Está na escuridão e anonimato

Alguém precisa errar a fala e gritar
Viver não é ser lembrado!
Descer do palco sem dinheiro no bolso
E culpa nos ombros

Ao passo que grito e escrevo
Peco em cima desse palco
Com um demônio segurando as cortinas e rindo
Da minha vaidade e ilusão

A única salvação é poder ir embora
Sem esperar aplausos
E caminhar descalço em cima das lembranças
Sem medo de cortar os pés.