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terça-feira, 3 de julho de 2018

Crescer & Morrer


Perder o espanto pelo extraordinário
É a pior parte sobre crescer
Sentir a surpresa liquefazer
E escorregar no meio dos dedos
É como não chorar ao fim de um espetáculo

É o carma humano
Crescer e ser alguém
Nos bolsos de alguém
Ao invés de ser alguém
Dentro de si

O insólito se torna habitual
Arrancando bocejos
Cada vez mais profundos

Fazendo a gente tapar os lábios
Com qualquer ópio
Que adormeça o corpo
E adoeça a alma

A gente pinta e borda
As correntes
Para combinarem com as olheiras
Mas não devia

Não deveríamos tanta coisa
Que não caberia nesse verso
Nesse peito

O nosso erro não é
Desejar o épico enquanto cresce
O nosso erro
É não encarar a vida como um orgasmo
Feminino
Um prazer profundo
Confundido com complexidade

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cambista


Eu não lembro quando foi  
Que eu troquei
A minha alma nessa corda
Que passei ao redor do pescoço

Não lembro de ter concordado
Em trocar sangue por ouro
Ouro por felicidade
Felicidade por tempo
Tempo por ilusão
Ilusão por realidade
Os meus bolsos estão cheios dela

Eu não lembro de ter chorado
Para entrar nesse clube
Onde sou eu que abro as portas
E atendo sorrindo

Ao invés de estar na grama
Sentindo mais do que só a pele
Queimando em contato
Com o sol

terça-feira, 27 de março de 2018

BAR


Odeio como você bebe a tristeza
Sem respirar um segundo
Entre um gole e o outro
Acaba com o copo de uma vez
E estica o braço
Para pedir mais

Outras bebidas dançam
Nas bandejas dos garçons
Antes de encostar nos lábios
De outras pessoas
Você fecha os olhos nesse momento
Para não sentir
O gosto por sinestesia

Você se afoga
E afoga as magoas
Com as próprias magoas
Vinte e poucos anos
Em um gole, glup

No fundo você sabe
Que misturou tristeza
Com um cubo de medo

Medo de descobrir
Que a felicidade é tão
Efêmera quanto a tristeza
Que você bebe
E no outro dia acorda
Indiferente a ela

Você preserva a euforia
Da felicidade
Como um bom uísque
Para ela permanecer
Intacta aos seus olhos
E sonhos

E só não pede uma dose dela
Porque está bêbado demais
Para se lembrar que já a sentiu
E amou.